Ele queria aquele beijo, queria que os seus lábios tocassem o dela finalmente. Olhava-a incessantemente, mas não tinha coragem de colocar a mão em seu rosto e conduzi-la ao derradeiro ato. A sua angústia era análoga a dos melancólicos poetas românticos: tudo não passava de sofridos desejos; as ações ficavam para folha de papel e, algumas vezes, para as noites solitárias e insones em sua triste cama. Já prometera a si mesmo que o tão esperado beijo não passaria daquele encontro, e que as suas fantasias ou se realizariam em toda a plenitude naquela madrugada, ou nunca viriam a se tornar reais.
Foi num barzinho sábado a noite que seus ímpetos internos vieram à tona. Suas vontades e pretensões gritavam por satisfação, assim como seus medos o corroíam as fibras cardíacas. A possibilidade da rejeição o apavorava mais que qualquer pantera que pudesse sair das sombras de seus pesadelos. O seu amor, virgem e latente, o privava de seu ego e natureza masculina. Poderia conquistar qualquer mulher, menos ela. Frente a esse sentimento ele não passava de um tímido garoto.
Sentou-se ao lado dela, respirou fundo e encarou-a com os olhos brilhantes que a vontade o estampara na cara. Conversaram sobre vários assuntos, riram juntos e trocaram alguns olhares. Por um momento olharam-se tão profundamente que o tempo parou. Nenhum dos dois pode respirar, nem sequer escutar toda a algazarra em volta. Ouviam apenas o frenesi que tomava-os o peito. Ele sabia o que estava sentindo, todavia milhares de dúvidas o tomavam quanto à recíproca. O seu ego, tão pisoteado por todo aquele platonismo, não o permitia acreditar plenamente que ela passava pelo mesmo. Pensava que aqueles momentos atemporais faziam parte apenas de seu imaginário, e que jamais o desejo que ele deveras sentia era compartilhado com aquela linda criatura. Idiota! Por isso digo que todo apaixonado é imbecil. Deixam de viver o amor para viver a incerteza e angústia; deixam de chegar às nuvens por medo de avião. Às vezes penso que a paixão é uma irônica e sádica puta.
Por vários momentos arriscou uma investida que não saía de seu imaginário. Às vezes alguns atos se exteriorizavam, porém a hesitação os corrompia antes de chegar à destinatária. Tentou uma ou duas vezes colocar as mãos em seu rosto e massagear seus cabelos, mas sempre aquele medo o levava a hesitar. Por um momento convenceu-se de sua covardia e decidiu desistir, mas foi só olhar para aqueles olhos novamente que aquela tímida e quase inexistente coragem voltava a irradiar em seu coração. Decidiu, então, apelar; Pediu uma dose de tequila e colocou todas as suas esperanças na crença de que seria aquela o seu cálice de coragem e atitude. A bebida chegou e numa golada só ele esvaziou o copo. Sentiu o seu corpo esquentar e seus ímpetos se agitarem em seu âmago. Foi então que a puxou para fora da mesa. Levou-a para um canto do bar. Sua mão enfim chegou àqueles cabelos e, com inefável prazer, ele os massageou como há muito tempo sonhava. Falou baixinho algumas palavras doces no ouvido, afastou-se e a olhou fixamente. Ela, com ternura, colocou as mãos sobre as dele, que estavam em sua cabeça, sorriu e fechou os olhos. Como num filme ele a beijou.
Eder de A. Benevides
domingo, 21 de março de 2010
sexta-feira, 5 de março de 2010
Metalinguístico
Há um motivo
Deste meu gosto
De com a caneta
Fazer letra
Letra de forma
Letra sem letra
Letra de dentro
Que escapa ao âmago
Para que no papel
Não fique ao léu.
É letra forte
De mãos confusas
Que escrevem sem saber.
Sem terem um norte
Pros sentimentos
Que são tão incertos
Em certos momentos.
É letra torta
Da caligrafia péssima
Daquele que sente mais
Do que suporta
Do que quer
Pois querer é inútil
Quando se trata dum poeta
Que possui como meta
Rabiscar o seu eu
Fazer da caneta
Junto a obliqua mão
Um apêndice;
Uma ponte do coração.
Eder de A. Benevides
Deste meu gosto
De com a caneta
Fazer letra
Letra de forma
Letra sem letra
Letra de dentro
Que escapa ao âmago
Para que no papel
Não fique ao léu.
É letra forte
De mãos confusas
Que escrevem sem saber.
Sem terem um norte
Pros sentimentos
Que são tão incertos
Em certos momentos.
É letra torta
Da caligrafia péssima
Daquele que sente mais
Do que suporta
Do que quer
Pois querer é inútil
Quando se trata dum poeta
Que possui como meta
Rabiscar o seu eu
Fazer da caneta
Junto a obliqua mão
Um apêndice;
Uma ponte do coração.
Eder de A. Benevides
terça-feira, 2 de março de 2010
Desabafo da madrugada
Pela primeira vez em três anos me apaixonei. Sou, agora, mais um daqueles pobres homens que, derrubados na sarjeta, insistem em chorar as mágoas de um amor platônico ou duramente frustrado. O pior é que a razão de toda minha lástima simplesmente não faz sentido: caí em desespero por alguém quem não dá a mínima para mim, e que, além disso, sustenta um pilar de frieza e indiferença em relação a minha pessoa. Para se ter idéia, no final do ano que passou, vivi um período de instigante luta no movimento estudantil ao lado dessa pessoa. Acreditei, inocentemente, que havia conquistado determinada intimidade e simpatia dessa esfinge ambulante, porém, para o meu caos interior, me enganei. Conversávamos sentados numa mesa do barzinho do DCE, era o meu último dia de estadia em Viçosa antes do recesso. A felicidade de estar simplesmente ao lado daqueles olhos conversando banalidades do quotidiano era o suficiente para que brilhantes sorrisos pulassem de minha face. Mas o que me apunhalou foi a derradeira despedida: um gelado aperto de mão e um olhar evasivo foi tudo o que recebi.
Passaram-se as férias em Vitória; conheci pessoas incríveis, vivi situações inusitadas e, como há muito tempo almejava, li muitos romances. Meu recesso foi satisfatoriamente aproveitado. As primeiras semanas de pensamentos intensos e nostalgias idealizadas não tardaram a dar lugar a devaneios positivos. Com os seus méritos, os papos em mesas de bar e as orgias frívolas, que só a boemia dos poetas pode oferecer, ajudaram a apagar aquela presença quase indelével de meus pensamentos. Pensei que aquele sentimento estava morto e enterrado. Não lembrava mais daquelas características que me deixavam noites e noites aprisionado na armadilha das madrugadas fantasiosas. Não pensava mais no jeito qual fuma, com as pernas cruzadas e o queixo levemente inclinado para cima. Nem sequer lembrava a forma de falar, andar, olhar... O erro foi pensar que o existente em meu âmago também morrera: o que na realidade ocorreu foi o conveniente afastamento das distrações.
Final de semana passado, depois de três meses sem nenhum tipo de contado, vi a pessoa novamente. Foi um choque, surto e acesso histérico. As reações químicas que ocorriam em meu cérebro deixaram-me assustadoramente desequilibrado; não havia me esquecido, sequer enfraquecido aquele mordaz sentimento. Corri para o lugar mais ermo possível, não queria de forma alguma qualquer tipo de contato. Fiquei isolado em meu frenesi por quase uma hora e, então, voltei ao ambiente social em que estava. Um amigo veio conversar comigo sobre um conto que eu escrevera. Pobre coitado; abri a boca e disparei a falar. O pior foi que eu não falava coisa com coisa; o meu estado ébrio só me permitia comunicar-me da forma mais desconexa possível. Logo o desafortunado deu um jeito de escapar daquele meu momento de loucura e me deixou sozinho na explosão de devaneios e sentimentos que duelavam em meu âmago.
O contato direto com a pessoa foi inevitável, conversamos coisas bestas e sem importância por puro formalismo. Conclui que o pilar boreal ainda está de pé, e, por mais doloroso que seja, o que eu sentia ainda sinto. Talvez haja uma sórdida incompatibilidade aí, e, como é de praxe, eu esteja nutrindo algo inútil e infrutífero. Mas algo, que não consigo identificar, não me permite desistir. Hoje imaginei mil modos de me aproximar e, talvez, alcançar os meus objetivos amorosos. O coração sempre articula modos inexplicáveis para manter os homens na fossa e a sarjeta cheia.
Eder de A. Benevides
Passaram-se as férias em Vitória; conheci pessoas incríveis, vivi situações inusitadas e, como há muito tempo almejava, li muitos romances. Meu recesso foi satisfatoriamente aproveitado. As primeiras semanas de pensamentos intensos e nostalgias idealizadas não tardaram a dar lugar a devaneios positivos. Com os seus méritos, os papos em mesas de bar e as orgias frívolas, que só a boemia dos poetas pode oferecer, ajudaram a apagar aquela presença quase indelével de meus pensamentos. Pensei que aquele sentimento estava morto e enterrado. Não lembrava mais daquelas características que me deixavam noites e noites aprisionado na armadilha das madrugadas fantasiosas. Não pensava mais no jeito qual fuma, com as pernas cruzadas e o queixo levemente inclinado para cima. Nem sequer lembrava a forma de falar, andar, olhar... O erro foi pensar que o existente em meu âmago também morrera: o que na realidade ocorreu foi o conveniente afastamento das distrações.
Final de semana passado, depois de três meses sem nenhum tipo de contado, vi a pessoa novamente. Foi um choque, surto e acesso histérico. As reações químicas que ocorriam em meu cérebro deixaram-me assustadoramente desequilibrado; não havia me esquecido, sequer enfraquecido aquele mordaz sentimento. Corri para o lugar mais ermo possível, não queria de forma alguma qualquer tipo de contato. Fiquei isolado em meu frenesi por quase uma hora e, então, voltei ao ambiente social em que estava. Um amigo veio conversar comigo sobre um conto que eu escrevera. Pobre coitado; abri a boca e disparei a falar. O pior foi que eu não falava coisa com coisa; o meu estado ébrio só me permitia comunicar-me da forma mais desconexa possível. Logo o desafortunado deu um jeito de escapar daquele meu momento de loucura e me deixou sozinho na explosão de devaneios e sentimentos que duelavam em meu âmago.
O contato direto com a pessoa foi inevitável, conversamos coisas bestas e sem importância por puro formalismo. Conclui que o pilar boreal ainda está de pé, e, por mais doloroso que seja, o que eu sentia ainda sinto. Talvez haja uma sórdida incompatibilidade aí, e, como é de praxe, eu esteja nutrindo algo inútil e infrutífero. Mas algo, que não consigo identificar, não me permite desistir. Hoje imaginei mil modos de me aproximar e, talvez, alcançar os meus objetivos amorosos. O coração sempre articula modos inexplicáveis para manter os homens na fossa e a sarjeta cheia.
Eder de A. Benevides
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Sofia
Foi mais um dia de boemia, daqueles que se vaga pela noite com o espírito de marujo: guia-se o barco na imensidão do oceano e deixa-se guiar pelas estrelas. Essas eram sim as guias de minhas aventuras, levaram-me direto ao prosaico bar de minhas bebedeiras e noites de glória, porém, dessa vez, não se precederam situações quotidianas. Ocorreu-me um daqueles episódios ludibriantes que acontecem com o intuito de embebedar o âmago e aguçar o prazer pela noite.
Com uma long neck de cerveja barata na mão direita, entrei no recinto e logo encontrei uma mesa com amigos que discutiam sobre cinema e música. Discutiam as peculiaridades de Scorsese, as esquisitices do Tarantino, o novo álbum da Maria Gadu e como Freddie Mercury sempre seria o maior cantor de todos os tempos. Por sinal tocava Bohemian Rhapsody, uma de minhas canções preferidas - sempre ela, doce e nostálgica. Aproveitei o fim de minha cerveja e me dirigi ao balcão, talvez bebesse uma dose de vodca para animar o espírito, mas por algum motivo, provavelmente dor no estômago, peguei outra long neck da mesma cerveja barata. Freddie Mercury ainda cantava, quem sabe por isso, por estar enlaçado em alguns devaneios provenientes da música, fiquei por ali no balcão, apreciando a bebida. Não tardou e ELA estava ao meu lado. Já a conhecia, havia a cumprimentado algumas vezes, mas nunca a reparara da forma que a repararia em seguida.
O nome é Sofia, sim, esse é o nome da peculiar protagonista do balcão de um bar noturno em plena quarta feira. Olhei para o lado, e por educação a cumprimentei. Ela sorriu de forma simpática e voltou o olhar para o barman, chamou-o algumas vezes, mas não foi atendida. Instintivamente gritei Luiz, o barman, e logo ele chegou. Virei para Sofia, indaguei sorrindo qual seria o seu pedido e, sorrindo, ela me respondeu:
- Nossa, obrigada, quase fui embora de mãos vazias. Uhm... Vou querer uma tequila! Ouro, por favor.
Pensei o desastre que seria. Ela aparentava já estar ligeiramente alterada, e uma dose de tequila seria simplesmente catastrófica. Ri comigo e previ o vexame. Dei o pedido ao Luiz e comentei com ela.
- Tequila, pedida perigosa!- ri - Algum motivo especial?
- Vou para Nova York amanhã à noite. Estou me despedindo da cidade, passei minha vida inteira nesse lugar. Acho que merece uma tequila.
- Bom motivo, mas o que vai fazer em Nova York?
- Vou atuar.
- Não sabia que atuava.
- Bem, as pessoas costumam me conhecer por isso, mas o perdôo pela garfe. – risos – Terminei agora o curso de artes cênicas. Sou oficialmente atriz e desempregada.
- Uhm, estar desempregada não é tão ruim assim. Pense em todas as pessoas estressadas que não têm o mínimo de tempo para si, e que no final de suas vidas percebem que na verdade trabalharam bem mais do que fizeram qualquer outra coisa de realmente interessante. - risos - Pelo menos estressada você não está.
- Você está brincando não é? – Deu algumas risadas e, mesmo com o ar lúdico, olhou-me fixo esperando por uma resposta afirmativa. Mas sim, falei aquilo por brincadeira, por mais que eu acredite que as pessoas passem o seu tempo deveras ocupadas em seus ofícios em detrimento de suas vidas, sei que necessitam tirar seu sustento de algum lugar e que alguma coisa de útil em seus quotidianos deve ser feita. Com um sorriso respondi:
- Sim.
- Ufa! Que bom, já estava pensando que diabos você deve fazer para ganhar a vida, se é desses canastrões que mora com a mãe e prega qualquer tipo de filosofia anti-trabalho.
A tequila chegou. Sofia pegou o copinho com a bebida de cima da bandeja, colocou sal na dobra entre o dedo indicador e o polegar, segurou um limão fatiado com os dedos citados e virou o copinho numa única golada; após a virada lambeu o sal e espremeu o limão na boca. Depois de todo o ritual ela respirou fundo, olhou para mim e perguntou:
- Você não mora com a sua mãe né? Porque se morar não tem nada a ver, eu falei só brincando. – Riu.
- Relaxe Sofia, eu moro sozinho num apartamento...
- Nem prega nem uma filosofia anti-trabalho?- riu - Brincadeirinha. Mas sim! As pessoas realmente gastam muito de seu preciso tempo com trabalhos chatos que nem gostam. Por isso atuo, amo isso.
- Mercy! Mas muito bom que ama...
- Trabalha com o que?
- O assunto não era você?
- Você não quer falar? Fale, não deve ser tão ruim assim.
- Marrenta você hein?! Eu sou advogado, trabalho em um escritório no Centro.
- Melhor do que imaginei, pela cerveja em sua mão...
- Eu gosto dessa marca, não tem nada a ver com o valor. - Olhei em seus olhos com um sorriso malicioso - Pelo menos não estou desempregado.
- Isso é golpe baixo! – riu. – E você gosta do seu trabalho?
- Gosto sim, bastante. Às vezes é bem estressante, mas nada como uma cervejinha numa quarta feira à noite, junto a uma surtada, para relaxar.
- Depois eu quem sou marrenta!
- Mas, voltando a você, onde vai atuar em Nova York? Já tem algo certo?
- Vou trabalhar numa companhia de teatro em Manhattan. O pessoal é bom, preparam alguns ótimos espetáculos, é uma oportunidade e tanto.
- Legal mesmo. Promissor! Mas, qual o gênero que você costuma atuar?
- Sei lá! Eu faço de tudo; tragédias, comédias, dramas, o que aparecer. Minha ultima peça foi algo bem clássico, interpretei Lady MacBeth, gostei muito.
- Claro, combina contigo.
- Bobo!
- Agora sério! Shakespeare é o máximo, deve ter sido bem difícil montar a personagem.
- Montar nem tanto, ela já foi interpretada muitas vezes, o perfil de Lady MacBeth já é, vamos dizer, bem delimitado sabe? O difícil mesmo foi dar vitalidade àqueles textos enormes, sem tirar o fato de que é uma tragédia shakespeariana. Lidar com a complexidade da personagem, suas peculiaridades; dar às falas os pequenos gestos que as tornam completas. Assumir uma personagem desse naipe é um desafio e tanto!
- Sim,e deve ser incrível!
- Já atuei em comédias também. Fiz a mulher do padeiro numa adaptação de O Alto da Compadecida do Ariano Suassuna.
- Vi o filme em 2000.
- A peça é diferente do filme, mas o filme foi ótimo! Nunca ri tanto.
- Melhor comédia brasileira.
- Sem sombras de dúvida! O Que foi Matheus Nachtergaele como João Grilo?!
- Muito bom! Ele foi maravilhoso!
Fitei os olhos dessa mulher e senti algo ímpar. Nunca a achara tão linda, por um instante a vi como a criatura mais interessante da Terra: Bonita, olhos azuis magníficos, papo inteligente e humor afiado. Todos esses “achismos” foram parte de um instante de admiração intensa, desses que temos sem compreender o motivo: admiramos por admirar. Talvez ela nem fosse tão bonita, os olhos não tão magníficos e o humor não tão afiado assim. Foi como a admiração que levou Werther a se apaixonar instantaneamente por Carlota. Que fique claro que esse não foi o meu caso, não me apaixonei, mas com certeza um profundo encantamento tocou meu espírito.
Fomos interrompidos da conversa por umas amigas de Sofia, insistiram para que voltasse a mesa com elas. Olhou-me com um sorriso de canto de boca e os olhos fixos nos meus, pensou por um instante e dispensou-as. Continuaríamos conversando por toda a madrugada, todavia, naquele momento, fez-se um silêncio que não passaria até que um dos dois o quebrasse: eu assumi a tarefa.
- Por acaso já fez o teste do sofá?
Sofia riu, balançou a cabeça, ia falar algo, mas não falou, depois me olhou, balançou a cabeça novamente e disse:
-Eu por acaso tenho cara de quem se submete a esse tipo de teste?
- Ainda não me respondeu – falei rindo.
- Não! – Fez cara de ofendida e depois riu - Mas eu conheço muitas pessoas que já.
- Sério? É muito comum? Porque a gente que é de fora do meio artístico sempre ouve falar, mas muito é mentira também. Conhece amigas que já fizeram?
- Para falar a verdade, amigas e amigos! Tem muito diretor filho da puta por ai. O mercado é muito competitivo, muitos atores fazem de tudo para conseguir o que querem, inclusive transar com os diretores.
- Então é verdade, fico imaginando se essas parcerias do cinema não são resultado de testes do sofá. Penélope Cruz e Almodóvar...
- Almodóvar é gay, aqueles dois têm uma química muito forte mesmo, não é sacanagem.
- Mas o Woody Allen e a Scarlet Johansson são suspeitos!
- Eles, o Johnny Deep e o Tim Burton.
Por alguns segundos rimos. Parecia que a química de Almodóvar e Penélope Cruz havia se manifestado em nós também. Estávamos íntimos e nos divertindo um com o outro. A conversa poderia durar uma eternidade, teríamos assunto mesmo assim. Pensei no quão longe aquilo poderia chegar e obtive a triste resposta de que nem sequer chegaria. Ela iria para Nova York no outro dia, aquela noite seria a única de muitas outras que ficariam pendentes.
-Mas se surgisse um papel que você quisesse muito e o único meio para consegui-lo fosse transar com o diretor da peça. Você transaria?
- Não sei! Até hoje não precisei disso, não sei o que faria nessa situação. – Ficou pensativa por uns segundos e tornou a falar. – Talvez, mas só se eu estivesse desesperadamente querendo o papel ou precisando de dinheiro, mas, mesmo assim, pensaria muito. – Parou e deu uma risadinha – Se o diretor fosse bonitinho ajudaria.
- Há! Sabia! Para falar a verdade eu não sou completamente contra o teste do sofá. É uma questão de economia, abrir mão de uma coisa para conseguir outra...
- Abrir mão de sua dignidade por um papel? – Riu.
- Eu não interpreto assim, não acho que seja uma questão de dignidade. Penso que seja mais uma questão de oportunidade, um sexo “de leve” por um papel que você queira muito não vai lhe matar.
- O problema é você transar com um, ficar “famosa” e ter que transar com todos os outros. É uma questão complicada, acho que pode arriscar até a carreira. O sexo se torna mais importante do que o seu talento.
- Mas é muito questão do valor que o sexo tem na sociedade, acho que é exagerado, se não houvesse todo o tabu em torno do ato o teste do sofá não teria tanto problema.
- Mas dignidade não tem a ver só com tabus e tradicionalismos. Acho que envolve o seu bem estar também e ao que você se submete, até onde você se agride e tal.
- Olhando por esse ângulo, há vezes que realmente não vale a pena.
Tirei um maço de Carlton do bolso, peguei um cigarro e o levei a boca quando lembrei que fora proibido fumar em recintos fechados. Sofia me olhou, pegou em minha mão e me puxou em direção a saída.
- Vamos sair, aproveito e lhe acompanho no fumo.
Do lado de fora, em frente à rua deserta já àquele horário, sentamos no meio fio e acendemos os cigarros. Ela acendeu o dela primeiro com o isqueiro, depois pegou o meu e o acendeu com o dela. Fazia um pouco de frio, o sereno da madrugada aproximou nossos corpos. Abracei-a e fique massageando sua mão esquerda.
- Toma, vamos sacrificar alguns dias de nossas vidas agora.
- Pois é, o pior é que alguma outra coisa sempre acaba nos matando antes que os cigarros o façam, por isso prefiro continuar.
Algum silêncio se fez após o comentário e o encarregado de quebrá-lo novamente fui eu.
- Você transaria comigo?
- Você não é diretor.
- Mas eu sou bonitinho.
- E atrevido.
- Pense bem, a sua carreira não está em jogo.
- É impressão minha ou isso foi um flerte?
- Claro que não! – Dei uns segundos – Mas deve ser bem interessante transar com a Lady MacBeth!
- Bobo! Bobo!
- Sofia, você é linda.
Olhei para os lábios daquela linda protagonista dos balcões e quando percebi já a beijava. Sua boca tinha gosto de cigarro, penso que a minha também, porém o gosto que havia por trás da nicotina era o sabor de um prazer inefável. Acredito que se não fosse todo o esforço racional em que me empenhei eu teria me apaixonado, seria idiotisse: iludir-me-ia e perderia noites de sono. Sabe? O destino é cruel, quando nos dá algo de incrível é quase obrigatório que seja efêmero, nesse caso, assaz efêmero. Foi como um gole de água fresca em meio ao deserto: nos dá o prazer da golada porém continuamos sedentos. Sabia que demoraria uma eternidade para encontrar outra pessoa por quem me encantasse tanto! Após o beijo as conversas foram poucas, em menos de uma hora estávamos em meu apartamento. Não contarei os detalhes do que aconteceu pois penso que já sabem o que ocorre nessas situações, contarei somente que fui capaz de amá-la. Se não permiti me apaixonar, pelo menos me permiti que a amasse por apenas uma noite, por apenas uma fração de segundo da minha existência. Digam o que for; que é deveras impossível amar alguém desse jeito, que não passou de um encantamento acompanhado de excitação, o que for. Amei-a e foi sincero. No outro dia pela manhã ela se levantou de minha cama, se vestiu, me deu um beijo nos lábios e se foi. À noite embarcou para Nova York e nunca mais nos vimos.
Eder de A. Benevides
Com uma long neck de cerveja barata na mão direita, entrei no recinto e logo encontrei uma mesa com amigos que discutiam sobre cinema e música. Discutiam as peculiaridades de Scorsese, as esquisitices do Tarantino, o novo álbum da Maria Gadu e como Freddie Mercury sempre seria o maior cantor de todos os tempos. Por sinal tocava Bohemian Rhapsody, uma de minhas canções preferidas - sempre ela, doce e nostálgica. Aproveitei o fim de minha cerveja e me dirigi ao balcão, talvez bebesse uma dose de vodca para animar o espírito, mas por algum motivo, provavelmente dor no estômago, peguei outra long neck da mesma cerveja barata. Freddie Mercury ainda cantava, quem sabe por isso, por estar enlaçado em alguns devaneios provenientes da música, fiquei por ali no balcão, apreciando a bebida. Não tardou e ELA estava ao meu lado. Já a conhecia, havia a cumprimentado algumas vezes, mas nunca a reparara da forma que a repararia em seguida.
O nome é Sofia, sim, esse é o nome da peculiar protagonista do balcão de um bar noturno em plena quarta feira. Olhei para o lado, e por educação a cumprimentei. Ela sorriu de forma simpática e voltou o olhar para o barman, chamou-o algumas vezes, mas não foi atendida. Instintivamente gritei Luiz, o barman, e logo ele chegou. Virei para Sofia, indaguei sorrindo qual seria o seu pedido e, sorrindo, ela me respondeu:
- Nossa, obrigada, quase fui embora de mãos vazias. Uhm... Vou querer uma tequila! Ouro, por favor.
Pensei o desastre que seria. Ela aparentava já estar ligeiramente alterada, e uma dose de tequila seria simplesmente catastrófica. Ri comigo e previ o vexame. Dei o pedido ao Luiz e comentei com ela.
- Tequila, pedida perigosa!- ri - Algum motivo especial?
- Vou para Nova York amanhã à noite. Estou me despedindo da cidade, passei minha vida inteira nesse lugar. Acho que merece uma tequila.
- Bom motivo, mas o que vai fazer em Nova York?
- Vou atuar.
- Não sabia que atuava.
- Bem, as pessoas costumam me conhecer por isso, mas o perdôo pela garfe. – risos – Terminei agora o curso de artes cênicas. Sou oficialmente atriz e desempregada.
- Uhm, estar desempregada não é tão ruim assim. Pense em todas as pessoas estressadas que não têm o mínimo de tempo para si, e que no final de suas vidas percebem que na verdade trabalharam bem mais do que fizeram qualquer outra coisa de realmente interessante. - risos - Pelo menos estressada você não está.
- Você está brincando não é? – Deu algumas risadas e, mesmo com o ar lúdico, olhou-me fixo esperando por uma resposta afirmativa. Mas sim, falei aquilo por brincadeira, por mais que eu acredite que as pessoas passem o seu tempo deveras ocupadas em seus ofícios em detrimento de suas vidas, sei que necessitam tirar seu sustento de algum lugar e que alguma coisa de útil em seus quotidianos deve ser feita. Com um sorriso respondi:
- Sim.
- Ufa! Que bom, já estava pensando que diabos você deve fazer para ganhar a vida, se é desses canastrões que mora com a mãe e prega qualquer tipo de filosofia anti-trabalho.
A tequila chegou. Sofia pegou o copinho com a bebida de cima da bandeja, colocou sal na dobra entre o dedo indicador e o polegar, segurou um limão fatiado com os dedos citados e virou o copinho numa única golada; após a virada lambeu o sal e espremeu o limão na boca. Depois de todo o ritual ela respirou fundo, olhou para mim e perguntou:
- Você não mora com a sua mãe né? Porque se morar não tem nada a ver, eu falei só brincando. – Riu.
- Relaxe Sofia, eu moro sozinho num apartamento...
- Nem prega nem uma filosofia anti-trabalho?- riu - Brincadeirinha. Mas sim! As pessoas realmente gastam muito de seu preciso tempo com trabalhos chatos que nem gostam. Por isso atuo, amo isso.
- Mercy! Mas muito bom que ama...
- Trabalha com o que?
- O assunto não era você?
- Você não quer falar? Fale, não deve ser tão ruim assim.
- Marrenta você hein?! Eu sou advogado, trabalho em um escritório no Centro.
- Melhor do que imaginei, pela cerveja em sua mão...
- Eu gosto dessa marca, não tem nada a ver com o valor. - Olhei em seus olhos com um sorriso malicioso - Pelo menos não estou desempregado.
- Isso é golpe baixo! – riu. – E você gosta do seu trabalho?
- Gosto sim, bastante. Às vezes é bem estressante, mas nada como uma cervejinha numa quarta feira à noite, junto a uma surtada, para relaxar.
- Depois eu quem sou marrenta!
- Mas, voltando a você, onde vai atuar em Nova York? Já tem algo certo?
- Vou trabalhar numa companhia de teatro em Manhattan. O pessoal é bom, preparam alguns ótimos espetáculos, é uma oportunidade e tanto.
- Legal mesmo. Promissor! Mas, qual o gênero que você costuma atuar?
- Sei lá! Eu faço de tudo; tragédias, comédias, dramas, o que aparecer. Minha ultima peça foi algo bem clássico, interpretei Lady MacBeth, gostei muito.
- Claro, combina contigo.
- Bobo!
- Agora sério! Shakespeare é o máximo, deve ter sido bem difícil montar a personagem.
- Montar nem tanto, ela já foi interpretada muitas vezes, o perfil de Lady MacBeth já é, vamos dizer, bem delimitado sabe? O difícil mesmo foi dar vitalidade àqueles textos enormes, sem tirar o fato de que é uma tragédia shakespeariana. Lidar com a complexidade da personagem, suas peculiaridades; dar às falas os pequenos gestos que as tornam completas. Assumir uma personagem desse naipe é um desafio e tanto!
- Sim,e deve ser incrível!
- Já atuei em comédias também. Fiz a mulher do padeiro numa adaptação de O Alto da Compadecida do Ariano Suassuna.
- Vi o filme em 2000.
- A peça é diferente do filme, mas o filme foi ótimo! Nunca ri tanto.
- Melhor comédia brasileira.
- Sem sombras de dúvida! O Que foi Matheus Nachtergaele como João Grilo?!
- Muito bom! Ele foi maravilhoso!
Fitei os olhos dessa mulher e senti algo ímpar. Nunca a achara tão linda, por um instante a vi como a criatura mais interessante da Terra: Bonita, olhos azuis magníficos, papo inteligente e humor afiado. Todos esses “achismos” foram parte de um instante de admiração intensa, desses que temos sem compreender o motivo: admiramos por admirar. Talvez ela nem fosse tão bonita, os olhos não tão magníficos e o humor não tão afiado assim. Foi como a admiração que levou Werther a se apaixonar instantaneamente por Carlota. Que fique claro que esse não foi o meu caso, não me apaixonei, mas com certeza um profundo encantamento tocou meu espírito.
Fomos interrompidos da conversa por umas amigas de Sofia, insistiram para que voltasse a mesa com elas. Olhou-me com um sorriso de canto de boca e os olhos fixos nos meus, pensou por um instante e dispensou-as. Continuaríamos conversando por toda a madrugada, todavia, naquele momento, fez-se um silêncio que não passaria até que um dos dois o quebrasse: eu assumi a tarefa.
- Por acaso já fez o teste do sofá?
Sofia riu, balançou a cabeça, ia falar algo, mas não falou, depois me olhou, balançou a cabeça novamente e disse:
-Eu por acaso tenho cara de quem se submete a esse tipo de teste?
- Ainda não me respondeu – falei rindo.
- Não! – Fez cara de ofendida e depois riu - Mas eu conheço muitas pessoas que já.
- Sério? É muito comum? Porque a gente que é de fora do meio artístico sempre ouve falar, mas muito é mentira também. Conhece amigas que já fizeram?
- Para falar a verdade, amigas e amigos! Tem muito diretor filho da puta por ai. O mercado é muito competitivo, muitos atores fazem de tudo para conseguir o que querem, inclusive transar com os diretores.
- Então é verdade, fico imaginando se essas parcerias do cinema não são resultado de testes do sofá. Penélope Cruz e Almodóvar...
- Almodóvar é gay, aqueles dois têm uma química muito forte mesmo, não é sacanagem.
- Mas o Woody Allen e a Scarlet Johansson são suspeitos!
- Eles, o Johnny Deep e o Tim Burton.
Por alguns segundos rimos. Parecia que a química de Almodóvar e Penélope Cruz havia se manifestado em nós também. Estávamos íntimos e nos divertindo um com o outro. A conversa poderia durar uma eternidade, teríamos assunto mesmo assim. Pensei no quão longe aquilo poderia chegar e obtive a triste resposta de que nem sequer chegaria. Ela iria para Nova York no outro dia, aquela noite seria a única de muitas outras que ficariam pendentes.
-Mas se surgisse um papel que você quisesse muito e o único meio para consegui-lo fosse transar com o diretor da peça. Você transaria?
- Não sei! Até hoje não precisei disso, não sei o que faria nessa situação. – Ficou pensativa por uns segundos e tornou a falar. – Talvez, mas só se eu estivesse desesperadamente querendo o papel ou precisando de dinheiro, mas, mesmo assim, pensaria muito. – Parou e deu uma risadinha – Se o diretor fosse bonitinho ajudaria.
- Há! Sabia! Para falar a verdade eu não sou completamente contra o teste do sofá. É uma questão de economia, abrir mão de uma coisa para conseguir outra...
- Abrir mão de sua dignidade por um papel? – Riu.
- Eu não interpreto assim, não acho que seja uma questão de dignidade. Penso que seja mais uma questão de oportunidade, um sexo “de leve” por um papel que você queira muito não vai lhe matar.
- O problema é você transar com um, ficar “famosa” e ter que transar com todos os outros. É uma questão complicada, acho que pode arriscar até a carreira. O sexo se torna mais importante do que o seu talento.
- Mas é muito questão do valor que o sexo tem na sociedade, acho que é exagerado, se não houvesse todo o tabu em torno do ato o teste do sofá não teria tanto problema.
- Mas dignidade não tem a ver só com tabus e tradicionalismos. Acho que envolve o seu bem estar também e ao que você se submete, até onde você se agride e tal.
- Olhando por esse ângulo, há vezes que realmente não vale a pena.
Tirei um maço de Carlton do bolso, peguei um cigarro e o levei a boca quando lembrei que fora proibido fumar em recintos fechados. Sofia me olhou, pegou em minha mão e me puxou em direção a saída.
- Vamos sair, aproveito e lhe acompanho no fumo.
Do lado de fora, em frente à rua deserta já àquele horário, sentamos no meio fio e acendemos os cigarros. Ela acendeu o dela primeiro com o isqueiro, depois pegou o meu e o acendeu com o dela. Fazia um pouco de frio, o sereno da madrugada aproximou nossos corpos. Abracei-a e fique massageando sua mão esquerda.
- Toma, vamos sacrificar alguns dias de nossas vidas agora.
- Pois é, o pior é que alguma outra coisa sempre acaba nos matando antes que os cigarros o façam, por isso prefiro continuar.
Algum silêncio se fez após o comentário e o encarregado de quebrá-lo novamente fui eu.
- Você transaria comigo?
- Você não é diretor.
- Mas eu sou bonitinho.
- E atrevido.
- Pense bem, a sua carreira não está em jogo.
- É impressão minha ou isso foi um flerte?
- Claro que não! – Dei uns segundos – Mas deve ser bem interessante transar com a Lady MacBeth!
- Bobo! Bobo!
- Sofia, você é linda.
Olhei para os lábios daquela linda protagonista dos balcões e quando percebi já a beijava. Sua boca tinha gosto de cigarro, penso que a minha também, porém o gosto que havia por trás da nicotina era o sabor de um prazer inefável. Acredito que se não fosse todo o esforço racional em que me empenhei eu teria me apaixonado, seria idiotisse: iludir-me-ia e perderia noites de sono. Sabe? O destino é cruel, quando nos dá algo de incrível é quase obrigatório que seja efêmero, nesse caso, assaz efêmero. Foi como um gole de água fresca em meio ao deserto: nos dá o prazer da golada porém continuamos sedentos. Sabia que demoraria uma eternidade para encontrar outra pessoa por quem me encantasse tanto! Após o beijo as conversas foram poucas, em menos de uma hora estávamos em meu apartamento. Não contarei os detalhes do que aconteceu pois penso que já sabem o que ocorre nessas situações, contarei somente que fui capaz de amá-la. Se não permiti me apaixonar, pelo menos me permiti que a amasse por apenas uma noite, por apenas uma fração de segundo da minha existência. Digam o que for; que é deveras impossível amar alguém desse jeito, que não passou de um encantamento acompanhado de excitação, o que for. Amei-a e foi sincero. No outro dia pela manhã ela se levantou de minha cama, se vestiu, me deu um beijo nos lábios e se foi. À noite embarcou para Nova York e nunca mais nos vimos.
Eder de A. Benevides
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Sonho Ruim

Sonho Ruim
Acho que me encontrei
Num carnaval diferente
As pistas estavam vazias
E as ruas sem gente
Faltaram as fantasias
Morreu a magia
Daquele samba possante
Que antes não cessava
Por um único instante
A galhofa de outrora
É a nostalgia que chora
No coração da mulata
Cuja profunda tristeza
O âmago do folião arrebata
Apagaram-se os refletores
E nesse fúnebre carnaval
Não restou amores
Tão pouco os louvores
Daquela gente feliz
Que samba por sambar
E com o brilho nos olhos diz
Que o sambódromo é sim
O seu doce doce lar.
Eder de A. Benevides
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